Cristina Ávila
Da equipe do Correio
A floresta amazônica enfrenta nova ameaça. A soja — cultura que precisa de muita terra plana, máquinas e insumos químicos para se desenvolver — avança rapidamente por áreas desmatadas, aproximando-se de terras até agora intocadas pelo homem. O plantio está sendo estimulado pelos governos Federal e dos estados e pela iniciativa privada, principalmente pelo Grupo André Maggi, responsável pela construção de um atalho pelos rios em direção ao Atlântico e aos consumidores europeus — a hidrovia Madeira-Amazonas, que barateou os custos do transporte na região.
O melhor exemplo do avanço da soja está em Rondônia, que vai exportar a partir de março 50 mil toneladas de grãos. O governo do estado pretende chegar a 140 mil toneladas em 2002, venda dez vezes maior do que a primeira exportação feita há apenas dois anos, que foi de 14 mil toneladas. O principal comprador é a Holanda, que esse ano já importou 1 milhão de toneladas do Mato Grosso, despachadas do Brasil pela hidrovia Madeira-Amazonas. O Grupo Maggi está de olho em 15 milhões de hectares de terras favoráveis ao plantio, em Rondônia, Roraima e no sul do Amazonas, uma área maior do que a do estado do Amapá, denominada Fronteira Agrícola Noroeste. Em Roraima o cultivo vai saltar de 1.850 hectares plantados para 10 mil. Humaitá (AM) já tem 15 mil hectares de lavouras de soja.
A chegada de uma cultura como a da soja à amazônia deflagra, de imediata, a disputa entre empresários e governantes, de um lado, grupos ambientalistas e povos nativos do outro. Enquanto os primeiros festejam as safras recordes, o faturamento com as exportações e a arrecadação dos tributos, o outro grupo, a começar pelo Fundo Mundial pela Natureza (WWF), que denuncia a ameaça de um desastre ecológico, com o radical desmate das florestas. Há, ainda, as queixas das lideranças sindicais.
‘‘Onde a soja entra, desintegra a agricultura familiar. É um desastre. Vai ocupando espaço, expulsando os pequenos agricultores e aumentando o desmatamento'', adverte o presidente da Fetagro, Anselmo de Jesus Abreu. Em campanha lançada com o WWF, no último dia 9, em Porto Velho, foram debatidas as experiências bem sucedidas de cultivos agroflorestais nos municípios de Nova California e Ouro Preto. Depois, o WWF pretende promover o debate em toda a Amazônia. A campanha começa pelo estado mais desmatado da região. Segundo cálculos da organização não-governamental, Rondônia já teve pelo menos 31% de suas florestas nativas destruídas. A média no resto da Amazônia é de 15%.
Empresários torcem o nariz: ‘‘É um movimento bucólico. Essas ONGs querem que todo mundo volte para a floresta e ande pelado. É folclórico, incentivam o plantio de cupuaçu e depois não têm pra quem vender'', afirma o superintendente da Hermasa Navegação da Amazônia S/A, empresa do Grupo Maggi que administra a hidrovia, Luiz Antônio Pagot. A hidrovia tem 1115 km nos rios Madeira e Amazonas, com dois portos em Itaquatiara (AM) e Porto Velho (RO). De Itaquatiara, navios seguem pelo rio Amazonas principalmente em direção à Holanda.
APOIO OFICIAL
O governo de Rondônia está apostando que vai ganhar com a soja. O vice-governador e secretário da Agricultura, Miguel de Souza, é um entusiasta. ‘‘Quando a hidrovia começou a funcionar, em 1997, passaram por Porto Velho 320 mil toneladas. No ano passado foram 907 mil'', comemora, citando a produção de Mato Grosso, que também faz parte da Fronteira Agrícola Noroeste.
‘‘A soja é viável na amazônia'', afirma o pesquisador Elói Elias do Prado, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Vilhena, que fez experimentos para adaptação de sementes à região. Ele acha que a implantação da hidrovia foi fundamental. Segundo seus cálculos, o custo de transporte entre Vilhena e os portos de Santos (SP) ou Paranaguá (PR) consumiam 70% dos lucros dos produtores. Por isso, muitos acabaram quebrando nos anos 80 no estado. Hoje, os custos com transporte representam 10% dos lucros.
Mas os empresários esperam muito mais. ‘‘Ainda faltam financiamentos do governo federal. No sul do Amazonas, por exemplo, a produção passou de zero para 15 mil hectares em um ano apesar de o único agente financiador ser o próprio estado. As lavouras são minúsculas considerando áreas propícias existentes. Nos últimos quatro ou cinco anos temos desenvolvido pesquisas e exaustivamente mostrado aos agricultores o caminho para a Fronteira Agrícola Noroeste'', ressalta Luiz Pagot. Ele assegura que não há riscos para o meio ambiente, porque a lavoura será implantada sempre em áreas degradadas. ‘‘Rondônia tem 10 milhões de hectares disponíveis para agricultura, e somente 1 milhão estão ocupadas com lavouras diversas. Vamos plantar nas áreas destinadas à agricultura pelo zoneamento econômico-ecológico do estado'', afirma.
Fonte: http://www2.correioweb.com.br
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